A leve pressão da mão dele sobre o ombro dela
Temos diante de nós três caminhos. Um é, sem dúvida, o mais longo de todos, embora aquele que o percorra verifique ao fim de algum tempo ter acabado por descrever um círculo regressando ao mesmo sítio. O outro é menos comprido. Contudo, não tem saída. Há, felizmente, um terceiro que é o mais curto de todos. Ele conduz-nos aos outros dois caminhos. Fernando Guimarães
O que alimenta um blog é o princípio do abalo, cujas réplicas exigem depois (porém nem sempre) a sedimentação da escrita. Como ontem, ao ler Poemas de Caravaggio de Amadeu Baptista, que deverei apresentar em breve na Fnac de Coimbra e que terminei de ler quase como se rezasse, com a mesma sensação de grata irrealidade com que há anos contemplei em Roma, na Igreja de Santo Agostinho, a Madonna dei Pellegrini. As palavras de Amadeu Baptista têm a treva e a luz das imagens do mestre e a mesma contida intensidade das suas figuras tão desamparadamente humanas. Como a figura da sua Virgem, cuja morte Caravaggio pintou sobre o corpo escandaloso de uma prostituta por ele resgatado às águas do Tibre. «A vida é turbulência / - e é assim que chega às minhas telas». Depois de cinco meses de silêncio, mentiria se dissesse que não sei por que voltei aqui.
«O encontro com o livro, como com o homem ou a mulher que vai mudar a nossa vida, muitas vezes num instante de reconhecimento de que não temos consciência, pode ser puro acaso. O texto que nos converterá a uma fé, nos fará aderir a uma ideologia, dará à nossa existência uma finalidade e um critério pode esperar-nos na secção dos livros em segunda mão, dos livros deteriorados ou em saldo. Podemos encontrá-lo, poeirento e esquecido, numa secção exactamente ao lado do livro que buscamos. A estranha sonoridade da palavra impressa na capa gasta pode então captar o nosso olhar: Zaratustra, Diván Oriental y Occidental, Moby Dick, Orcynus Orca. Enquanto um texto sobreviver, em algum lugar desta terra, mesmo que seja num silêncio que nada vem romper, é sempre capaz de ressuscitar. Walter Benjamin ensinou-o, Borges fez a sua mitologia: um livro autêntico nunca é impaciente. Pode aguardar séculos para despertar um sopro de vida. Pode estar à venda por metade do preço numa estação de caminho de ferro, como estava o primeiro Celan que descobri por acaso e abri. Desde aquele momento fortuito, a minha vida transformou-se e tenho tentado aprender "uma língua ao norte do futuro".»
Roseman Bridge
Era uma vez uma exposição de arte africana: máscaras de dança, máscaras de defuntos, imagens de pequenos deuses, uma porta de santuário e um portentoso ensaio sobre a Verdade esculpindo sabiamente a madeira. E vi a exposição uma vez, e não a vi quando a vi, e voltei a vê-la novamente depois de a ter visto através das palavras que a viram (por) para mim. Revê-la foi já olhar para a espessura intransponível daquela porta de santuário e do seu sagrado. Revê-la foi sobretudo contemplar a história fechada de uma história no imprevisto arranjo de pigmentos vários, sobre o desenho redondo da madeira. Era uma escultura com quatro figuras humanas dispostas em círculo, olhando cada uma delas na direcção dos quatro pontos cardeais, com um camaleão em cima das quatro cabeças. Sim, a Verdade (mas podíamos dizer todo o real) depende sempre do ponto de vista a partir do qual a olhamos e, tal como um camaleão, vai mudando em função do contexto a partir do qual julgamos percebê-la. Morte e vida, vida e morte, no andamento circular da cor no rosto das quatro figuras: o branco de que aparecem vestidos os negros à nascença, o preto da idade adulta e de novo o branco apoiando simbolicamente a morte. Qualquer morte. Filosoficamente perfeito. Cristalinamente simples. Meses de uma vida de repente retratados ali: o branco-branco do início, o branco-negro do meu deus como é possível e depois o negro-branco do fim. Porque a verdade de qualquer verdade depende sempre do lugar de onde a olhamos e esse lugar em mudança vai aos poucos alterando o seu sentido como se atingido pela sábia verdade do camaleão. E o que vemos no depois da mudança não é já (não pode ser) o que víamos no antes dela.
A Rainha, de Stephen Frears. Como sempre, na primeira fila até se apagarem as luzes e depois umas filas mais atrás, de modo a não ter ninguém entre mim e o ecrã. A citação inicial de Shakespeare («uneasy lies the head that wears a crown», do Henrique IV) já tinha dado um pouco o tom - o do dilema entre o público e o privado, o dever e o sentimento, a responsabilidade e a defesa do humano -, embora só muito mais tarde a densidade psicológica da rainha acabe por se revelar ao espectador. Não, este não é um filme sobre a tumultuosa semana anterior ao funeral de Diana, nem sobre a forma como a família real inglesa reagiu ao inesperado do acontecimento: é um filme sobre o peso espartilhante da coroa na vida de uma mulher, tomando como motivo directo as consequências geradas pelo fatídico acidente de Paris. E esse peso não é coisa que possa mostrar-se para espectador ver, porque é tudo menos simples, como afirmava Geraldine Chaplin no fim de um filme muito meu - «Eu sou professora de ballet e posso garantir-lhe que nada é simples». De facto, é preciso ler um pouco para lá do concreto da imagem, espreitando insidiosamente o reverso das duas extraordinárias cenas do veado (primeiro a da sua liberdade, depois a da sua captura), onde está em síntese todo o percurso biográfico de abdicação da rainha, irrepreensivelmente interpretada por Helen Mirren. Nunca saberemos se foi assim que tudo realmente sucedeu, mas isso não importa, porque se não foi assim poderia perfeitamente ter sido, até porque este exercício de indagação ficcional da verdade é quase tão importante para a eventual fixação da mesma como a narrativa exacta dos factos. Como quase sempre me acontece, do filme de Frears ficou-me sobretudo uma imagem - a do veado passeando tranquilo pelos campos da Escócia e a da comoção da rainha ao olhar para ele. Um filme em grande.
A mulher acreditou que talvez fosse possível chegar lá, apesar dos vários mundos que a separavam do desejado futuro dos seus passos. E talvez fosse possível, apesar do calor, da sede, do sol a pique e da violência da areia no perfil obtuso da hora. Talvez sim, talvez consiga, pensava ela, esquecendo por momentos que afinal transportava lá dentro, no oco mais oco de si, a carcaça já óssea do sangue. Mas aquilo na fotografia não é um esqueleto humano, disse o homem bem dentro da cabeça da mulher. Pois não, lembrou ela, é apenas o cadáver de um animal à beira de se tornar gente, porque é o corpo de alguém ainda com a ilusão dentro. É verdade que não chegou onde queria, coitado, tal como eu provavelmente também não chegarei, mas diz a História que o importante não é chegar onde se quer, o importante são as marcas que vamos deixando ao longo do caminho percorrido. A mulher olhou uma vez mais para a redondez da fenda aberta na areia, por detrás do corpo do animal com a ilusão dentro, e sorriu vagamente enquanto contemplava os vales profundos que guardava nas mãos.
E de facto ajudaram. Depois de dois dias de colóquio sobre o tema da ruína, os deuses obedeceram ao apelo humano e fizeram de Aveiro o objecto privilegiado do seu castigo. A meio da tarde de ontem, os ramos das árvores começaram a levantar voo no severo caos do ar, num movimento inverso ao das gaivotas, que imediatamente abandonaram a convulsão da água e avançaram firmes na direcção da terra. Enquanto um colega dissertava sobre a tragédia de Ésquilo e sobre a dita ajuda dos deuses, ao apressar-se o homem para a ruína, olhei para fora através do vidro e lá estavam as gaivotas, pousadas na precária solidez da beira-ria e lado a lado com os patos, medrosamente agachados na erva e formando ao longe um perfil quase esférico de penas. Quando saí em busca do carro, o chão era um estranho tapete de guarda-chuvas, restos esgalhados de arbusto e folhas sem tronco atrás, tudo arrancado ao seu costumeiro aprumo pela fúria da chuva e do vento e pela (in)justa ira dos deuses. Não havia comboios, a estação de Aveiro parecia a foz do Ganges e os autocarros pareciam ter-se sumido no labirinto aéreo da tarde, juntamente com o cadáver vegetal das folhas. Colegas voltaram conformadamente para trás, de regresso ao hotel de onde tinham acabado de sair, outros encontraram milagrosas boleias, outro ainda teve uma avaria no carro e eu pus-me a caminho de casa, decidida a enfrentar a divina ironia de Zeus com o rolar prudente e vagaroso dos pneus. Dizem que Deus não dorme, mas às vezes ressona muito.
A casa onde às vezes regresso é tão distante
da que deixei pela manhã
no mundo
a água tomou o lugar de tudo
reúno baldes, estes vasos guardados
mas chove sem parar há muitos anos
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Durmo no mar, durmo ao lado de meu pai
uma viagem se deu
entre as mãos e o furor
uma viagem se deu: a noite abate-se fechada
sobre o corpo
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Tivesse ainda tempo e entregava-te
o coração
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José Tolentino Mendonça, A Que Distância Deixaste o Coração.
Já lá vai o tempo em que o canal Fox exibia todos os fins de tarde um novo episódio da série Dr. House, que muitas vezes me fez chegar mais cedo a casa. Depois a TVI passou a exibi-la à improvável hora dos bons programas e eu perdi-lhe um pouco o rasto ... até há pouco, uma vez que os indefectíveis da série, entre os quais eu me incluo, passam a ter agora ao alcance de uns quantos euros os 22 episódios inteirinhos da primeira temporada. Não, não digam que Dr. House é uma série de hospital, apesar do seu espaço ficcional corresponder efectivamente ao de um hospital. Porque aqui não é preciso esventrar criaturas nem exagerar na visibilidade do sangue para que o efeito de real perdure - basta apenas o espectáculo da inteligência e a finura do humor evidenciados pela série, associados à inacreditável personagem que é Gregory House, um verdadeiro eremita com muita pena da sua solidão. Para as mulheres, House representa nada mais nada menos que o princípio da perdição: é bonito e sensual, mas é sobretudo detentor daquela pose rafeira de cão sem dono que logo estimula no sexo oposto o estúpido desejo de protecção, que é onde sempre mora o perigo. Mas o House é, felizmente, apenas uma figura de ficção, de modo que me permiti oferecê-lo a mim própria como presente de Natal. Ontem trouxe-o da Fnac e é com ele que vou passar o meu serão, já já a seguir. Chhhhh! O House vem aí...
Do realizador coreano Kim Ki-Duk, o filme 3-iron retoma algo de fundamental do anterior Spring, Summer, Fall, Winter... Spring: o entendimento do tempo como um devir absolutamente inexpugnável e a sua vivência como íntima construção do homem. Mas 3-iron não é propriamente um filme sobre o tempo e os seus efeitos, como o era Spring..., mas um filme sobre a solidão dos homens e o papel do silêncio na denúncia e/ou sublimação dessa mesma solidão. Tae-suk vagueia pelas ruas na sua mota em busca de casas temporariamente desabitadas onde possa viver sozinho a ficção de uma família, fazendo-se retratar ao lado das fotografias que vai encontrando de casa em casa e refazendo as tarefas domésticas de quem não está para que ele possa estar - lavar a roupa suja e consertar electrodomésticos avariados. Não, não me parece que o faça numa tentativa de retribuir a involuntária hospedagem dos proprietários, mas de modo a tentar estabelecer com o espaço simbólico do lar uma ambígua forma de pertença. Até que Tae-suk encontra Sun-hwa numa dessas casas, uma bela mulher maltratada pelo marido e que parte com ele em busca da mesma ficção que impulsionava as solitárias derivas de Tae-suk. A experiência conjunta da rotina doméstica, vivida nas casas por onde vão passando, acaba por sedimentar em ambos o lento trabalhar da maior e da mais silenciosa de todas as ficções - o amor, um amor integral que a mútua solidão acabou por converter em destino para a vida. Mas dito isto é como se não tivesse dito nada, porque isto não é na verdade o filme, mas apenas o motivo dele. O verdadeiro filme está na elegantíssima exploração do implícito e do não-dito como factor primordial de intensificação da intimidade entre Tae-suk e Sun-hwa; está na terrível beleza da música de Natacha Atlas, que acompanha a progressiva aproximação dos futuros amantes como se fosse uma espécie de íntima rima das almas, em trânsito convergente para o mesmo inevitável centro; está no sábio movimento das bolas de golfe à roda do ferro nº3 - desde a lentidão com que a bola é inicialmente trocada entre Tae e Sun (e este é talvez o seu único "diálogo" ao longo do filme) à violência que depois lhe imprimem tanto o próprio Tae como o enciumado marido de Sun. E está sobretudo, mas sobretudo, nos belíssimos momentos finais em que não existe nem o fantástico nem o fantasmático, porque existe apenas a encenação de uma muito rara capacidade - a de vivermos o amor apenas dentro de nós quando o outro nos falta e tudo é para nós como se não faltasse. Porque o amor resume-se afinal a um imóvel ponteiro de balança pousado no zero, com um imaginário prato em cima a tentar suportar o peso imaterial do coração. Obrigada, Paulo, por mais isto.
A mulher chegou-se à janela e passou a cortina branca para trás da cabeça, encostando muito o nariz ao vidro. Nem era bem um vidro, era um pequeno espelho mudo que de vez em quando lhe permitia atravessar a estrada para o lado de lá, onde acabava a cidade e o deserto começava. Pousou maquinalmente a mão na lisa superfície do vidro e verificou sem surpresa que estava morna. Seria, como sempre, dos raios ainda oblíquos da manhã ou então da nocturna respiração das paredes, saturadas que estavam do hálito difícil e pegajoso do homem. A mulher soprou ao de leve na incerta direcção do deserto e uma nuvem de pequenas gotas colou-se ao fundo luminoso da tela. Com o dedo indicador desenhou a medo a brusca linha dos montes e só depois a fundura horizontal da terra, com o olhar vazio de quem já não espera a fortuna irreal do movimento. Eu pertenço ali, disse para si a mulher, pertenço ao lume intenso daquele frio e à pura incandescência da hora, ao grito agudo dos ventos e ao redondo desamparo das pedras. Ao eterno abandono do tempo, à desolação final dos bichos e ao côncavo silêncio da terra. Eu pertenço ali. O relógio gemeu timidamente as horas, vibrando um desacerto de madeiras no ninho invisível da parede, e a mulher atravessou novamente a estrada, agora na direcção contrária e galgando atabalhoadamente, na estudada pressa dos chinelos, o pequeno muro logo a seguir à relva. Um branco trejeito de renda voltou a cair sobre a face vidrada do espelho e a mulher foi-se aos poucos afastando, esquecendo por momentos a janela onde faiscavam agora pequenos cristais de areia, acabando por se perder definitivamente nos densos e obscuros corredores da casa.
Michael J. Austin, Black Drape
Para ti, Paulo
NUDEZ
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Vertical, pelo corpo
a nudez principia
como a primavera no tempo
ou a luz junto dos olhos.
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Pressentida verdade
que nos une. Em silêncio
regressamos à origem
dessa praia longínqua.
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Ali, nenhuma imagem
altera o seu destino.
Como um fruto, procura
a direcção da terra.
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Apenas as nossas mãos
ignoradas desprendem
os cabelos: memória
de remotos vestidos.
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Fernando Guimarães, Poesias Completas, vol. I, Porto, Edições Afrontamento, 1994, p. 49.
Era já de noite quando a mulher saíu de casa. Levava nos passos a suspeita de um encontro nupcial e foi assim que parou, com a pele à flor da hora, na concha listrada da última rotunda. Uma farda de polícia com barriga dentro, indiferente ao difícil trânsito do amor, parou-lhe logo ao lado e mandou-a seguir friamente o seu caminho - que não, que não podia estar ali -, de modo que a mulher deu mais duas voltas ao compasso exacto da rotunda, procurando nervosamente o homem na pressa tardia dos faróis, por entre o nocturno cansaço dos vastos fumos urbanos. Àquela hora os automóveis já não tinham cor, eram apenas dois imensos olhos, acesos de luz, que a cada passagem iam cegando a lenta espera da mulher. Mais tarde, de novo em casa e em face do mútuo desalinho da roupa, a mulher lembrou-se do último verso de um poema muito seu e sorriu ao de leve, repetindo só para si a memória dos remotos vestidos. Às vezes a vida tem coisas muito bonitas, disse o homem, olhando sem medo a fundura dos olhos da mulher. Mas depois o medo voltou e o homem ausentou-se um pouco, de olhos fechados e vagamente desconfiado da bondade divina do milagre. A mulher percebeu mas nada disse - se ele não tivesse medo não estaria aqui, pensou. E apertou-o mais contra si.
É isso aí. Ana Carolina é felizmente uma descoberta antiga, desde os seus tempos de "Trancado", "Nada para mim" ou "A canção tocou na hora errada". É exemplar o poder da sua voz e a elegância absolutamente implacável das suas composições. Isso e muito mais fizeram o extremo sucesso do ainda recente Estampado. Uma Ana Carolina em grande forma, mostrando à saciedade por que é por muitos actualmente considerada uma das melhores (senão a melhor) vozes femininas do Brasil. Pois recentemente saíu o album de um seu concerto, juntamente com Seu Jorge. É isso aí e este é justamente o título da mais bela música que pude ouvir em muito tempo, numa parceria mais que perfeita entre feminino e masculino. Como cantam Ana e Jorge, eu não sei parar de te olhar.
Deserto da Namíbia
Deve haver algures uma ciência (in)certa do deserto, embora dela eu nada saiba ainda. Todavia, há espaços que, existindo, é como se me chamassem para o infinito novelo de si próprios. O meu deserto de nunca é o da trémula vertigem do silêncio, aquele que é quebrado apenas pela fundura dos passos que deixamos na areia e pelo bater desencontrado do coração, procurando no desalinho das veias a derradeira voz do sangue. Mas o deserto não pode ser logo essa visão total da infinitude - ele tem que nos ir crescendo pouco a pouco, seguindo de perto a lenta perfuração do olhar e a invenção dessa companhia de raízes que, em meio do nada irradiante, em nós nos vamos descobrindo. A verdadeira metafísica deve ter nascido aí.
Há muitos anos, num concerto de Caetano Veloso, um amigo meu (que era amigo de um amigo do próprio Caetano, também ali presente) perguntou-me no fim do espectáculo se eu gostaria de ir ao camarim falar um pouco com ele. Imediatamente tremi de terror, não porque receasse o que quer que fosse, mas apenas porque amava de mais o Caetano para isso. Por que diabo me haveria de interessar o homem por detrás do mito? Continuei, pois, a amá-lo através da distância necessária ao encantamento e até hoje a nossa relação não sofreu a mais pequena mácula. Ora, vem isto a propósito de ter eu há pouco lido, numa página do Público, o anúncio da presença de Lobo Antunes na Bertrand de um centro comercial de Coimbra. Amanhã, às quatro e meia da tarde. Instantaneamente, pus-me a pensar no que leva as pessoas a acotovelarem-se, agitadas e com o colo grávido de livros, em frente de um homem sentado atrás de uma secretária, de esferográfica em riste. É que ali não está o escritor, está apenas um homem que não tem, naquelas circunstâncias, provavelmente nada a dizer-lhes, a não ser que está ali para assinar os livros de um outro senhor realmente muito parecido consigo e que tem, imagine-se, o incrível vício de escrever livros. Por isso o meu escritor não descerá da estante amanhã, porque não creio que seja possível falar com ele a sério longe da sua particular oficina de escrita. E mesmo aí (ou sobretudo aí), como qualquer outro intruso, eu estaria já obviamente a mais. O que lhe diria eu, se por milagre me fosse mesmo possível vaguear por ali, como fazem as suas personagens? Provavelmente apenas isto - os seus livros ajudam-me a viver. Mas isto já ele deve saber, não porque o saiba de mim, mas porque sabe que é para isso que escreve - para poder viver e para ajudar os outros a viver. De modo que, por uma questão ou por outra, parece-me bem melhor ficar calmamente em casa, do lado de dentro da chuva, substituindo (com o gosto acrescido do pecado consumado) o que deveria estar a ler pelo que me apetece de facto ler, e abrir a sua Babilónia como quem se prepara para o doce recato da oração. Um livro redundante, dizem, um intervalo na sua obra ímpar, como ainda hoje li. Talvez, talvez. Mas mesmo que o seja, um intervalo é sempre mais um degrau na árdua escalada do verbo, até porque num escritor integral, como António Lobo Antunes, os intervalos não podem viver-se na total privação da palavra, mas na contínua e dolorosa maceração da escrita.
Que Dália Negra não é um filme revolucionário, pelo menos como parece ter sido Femme Fatale na carreira de Brian de Palma? Concedo. Que Scarlett Johansson e Hilary Swank estão (mais a primeira do que a segunda) notoriamente subaproveitadas, em personagens sem muita espessura, apesar da sua potencial riqueza? É verdade. Mas nada disso retira ao filme aquilo que ele também é - um elegantíssimo exercício de estilo sobre a idade de ouro do cinema americano. Ora a elegância de um realizador não é nunca de desprezar, porque, como também sucede com as outras pessoas, é mais rara do que se pensa. E depois (mas devia dizer sobretudo), o filme de Brian de Palma tem Mia Kirshner, em imagens inesquecíveis de inocência e fragilidade. A figura trágica por excelência. A cena em que Elizabeth Short revela entre risos a sua história, rompendo as meias com as mãos para conseguir dominar as lágrimas, vale o todo do filme. Não é sequer uma cena, é um poema de amor, tragédia e morte. Numa entrevista de casting, alguém pergunta à dália negra se ela conseguiria um dia representar a tristeza. Provavelmente não, se o tentasse com a disciplina da razão, mas não conheço em cinema uma tão bela imagem da tristeza como a das suas unhas insinuando-se pelos buracos das meias. Há imagens que valem um filme e actores que o valem também. Espantosa, espantosa Meryl Streep, que faz de um filme banal (O diabo veste Prada) um filme realmente com interesse. Esta senhora, tão elegante na pele de uma requintada editora de moda nova-iorquina como na de uma mulher de meia idade do Iowa, não vale todo o filme, é todo o filme. Muito, muito de vez em quando, há actrizes assim.
Há semanas atrás resolvi ir à feira semanal do Bairro Norton de Matos, onde, confesso, nunca antes tinha posto o pé, e logo eu que gosto tanto de feiras de rua... Mea culpa, portanto. A manhã queimava de sol e gente na brancura dos toldos, onde boiavam ainda aromas e fumos de cozinha, como no poema do Cesário. De porcelanas reluzentes nem a sombra, mas o retalho da horta lá estava, ombro a ombro com centenas de jeans de marca roubados e outras tantas t-shirts, a preços tão incríveis como as tintas que nelas imitavam a cor da moda: vermelhos Gant e verdes Tommy Hilfiger, prometendo descorar à primeira suspeita de água. Uma cigana jovem, de larga trança preta pela cinta, subia convicta a um banco as suas grossas meias, calçadas por fora do fato de treino escondido pelo avental de ramagens, e apregoava alegremente os produtos de boutique que dizia vender. -Isto é produto de botica! 5 euros! Olhei divertida para a fúria respigadora das clientes e logo a seguir para o perigoso desenho das saias, de costuras esgaçadas pela pressa momentânea da posse. Um passo mais e quilos de malas de senhora revolviam-se numa longa e confusa banca, encabeçada por uma cigana mais velha carregada de oiros. Tal como certos bombons de anúncio, aquela também não era uma cigana qualquer. Esperta que nem um alho, sabia vender melhor o espectáculo de si própria do que as malas que se lhe amontoavam aos pés. Com o altifalante bem afiado e um possante microfone no repolho tosco das mãos lá ia esgoelando a sua história: - Podem escolher à vontade, minhas lindas, façam favor de escolher, 20 euros! Só peço que não me roubem, que para isso estou cá eu, a ladrona de Lamego! A cigana que rouba de noite para vender de dia! Quem passava ria-se e ela aproveitava para chocalhar vagamente os braços, contente do poder instantâneo das suas palavras, lançadas assim do poleiro da banca para a turba compradora cá em baixo. A manhã ia avançando, indiferente à hora, e os braçados tesos das nabiças começavam finalmente a definhar, com as folhas já moles no plástico descuidado das bacias. Um rasto de poeira e de suor perseguia devagar os passos apressados das senhoras, das senhoras finas de Celas (com as mãos a tilintar do discreto luxo das pulseiras) e das ajudantes de cabeleireira (a pensar já no atraso do almoço e nos muitos contratempos da enfadonha vida doméstica). Horas depois tudo tinha já desaparecido: a ladrona de Lamego, a roupa de contrafacção, os fartos ramos de salsa e as senhoras finas e não finas. Até eu.
Saídos da adolescência, acreditamos ainda que basta ao poeta olhar ao contrário dos outros homens, para o que guarda dentro de si, lá bem atrás dos olhos com que vê, para que a poesia aconteça, inteira, sublime e intocada quase pela mão humana. Coitados de nós, que ignoramos que o poema representa talvez uma das mais intensas impressões digitais do valor humano e que assim não pode nascer do poeta para o mundo, mas do mundo para o poeta. Se um aluno hoje me pedisse uma breve definição de poeta acho que lhe falaria apenas de um caminhante solitário, com olhos de água e uma cama lisa de palavras no profundo lugar do coração. Nem sei se o poeta passeia, mas sei que o poeta caminha, somando passos, tempos e imagens que são como linhas invisíveis que depois lhe tecem o mar tormentoso da escrita. O mundo avança, o poeta caminha, a obra nasce.
Talvez estejam ainda verdes, concedo, mas em breve estarão assim, em fogo cor de beijo, como redondos sóis procurando a direcção da terra. Os olhos da mulher nada poderão ver e ela terá que pedir ao homem para usar os olhos dele. Conta-me a laranjeira, dirá, empresta-me os teus olhos nas palavras com que dirás do lume intenso das folhas e do peso incandescente dos frutos. O homem dirá está bem e uma pequena lágrima doce cairá devagar pela sua face. E a mulher dirá simplesmente sim, estou a ver agora, conta tudo, e depois voltar-se-á para dentro, para o denso caule de si própria, para ver melhor.
Entre uma reunião e uma conferência fui hoje ver o mar. Depois da ponte sobre a ria de Aveiro, surgem logo ao nível dos olhos as altas dunas da praia, hoje branquíssimas sob o sol enfermiço de outono. No ainda longe da ponte, pequenas manchas verdes começam a querer pousar na areia, ondulando ao vento como aranhas na busca vagarosa da presa; um pouco mais para lá do verde entristecido dos arbustos estava enfim o verde quase impossível da água. Visto de perto, o mar estava exactamente assim, impossível e absurdamente verde, com a brancura da espuma a lembrar uma fresca dentadura de anúncio. Não havia praticamente ninguém naquela esplanada sobre o mar e a praia estava quase vazia, virgem ainda, na quieta lisura da areia, dos passos descuidados dos homens. Alguns surfistas debatiam-se com a força das ondas e daí a pouco eram apenas uma série de pontos negros no verde imenso do mar. Por momentos o vento susteve o rodopio do ar e tudo parou, ao passo silencioso de uma avioneta na exacta linha da beira-mar. Às vezes há momentos perfeitos. Que bom seria se ali tivéssemos estado os dois.