Thursday, July 03, 2008

A leve pressão da mão dele sobre o ombro dela

David Lean, Brief Encounter (1945)
Encostada ao banco do comboio, a mulher dizia para si que haveria um dia de olhar aquele momento com a ternura com que se olha tudo o que está para trás, esquecida já que estaria, com o rotineiro devir dos anos, a dor daquele instante em que só pensava no futuro para que pudesse doer um pouco menos a certeza de continuar a respirar. Mas eu não quero esquecer, quero continuar a lembrar tudo e cada minuto desse tudo, disse para si. E então a mulher soube que essa seria sempre a sua íntima condenação - a necessidade imperiosa de esquecer e a renovada urgência de lembrar. Esquecer para continuar vivendo e lembrar para não se deixar morrer. Foi isso que, momentos antes, o gesto do homem também disse, na leve pressão da sua mão sobre o desamparo do ombro da mulher, antes de abandonar de uma vez, por entre a luz cinza da tarde e os restos de chá frio, o bar da estação em direcção à plataforma 3. O nome dela pode ser Laura e o dele também pode ser Alec. Laura Jesson e Alec Harvey.
P.S. Neste dia em que partiste, São, falar da vida e do cinema é uma forma de te dizer que continuas connosco.

Friday, June 20, 2008

Poemas de Caravaggio

Caravaggio, Morte da Virgem

O que alimenta um blog é o princípio do abalo, cujas réplicas exigem depois (porém nem sempre) a sedimentação da escrita. Como ontem, ao ler Poemas de Caravaggio de Amadeu Baptista, que deverei apresentar em breve na Fnac de Coimbra e que terminei de ler quase como se rezasse, com a mesma sensação de grata irrealidade com que há anos contemplei em Roma, na Igreja de Santo Agostinho, a Madonna dei Pellegrini. As palavras de Amadeu Baptista têm a treva e a luz das imagens do mestre e a mesma contida intensidade das suas figuras tão desamparadamente humanas. Como a figura da sua Virgem, cuja morte Caravaggio pintou sobre o corpo escandaloso de uma prostituta por ele resgatado às águas do Tibre. «A vida é turbulência / - e é assim que chega às minhas telas». Depois de cinco meses de silêncio, mentiria se dissesse que não sei por que voltei aqui.

Tuesday, January 08, 2008

Os vários livros do livro

«O encontro com o livro, como com o homem ou a mulher que vai mudar a nossa vida, muitas vezes num instante de reconhecimento de que não temos consciência, pode ser puro acaso. O texto que nos converterá a uma fé, nos fará aderir a uma ideologia, dará à nossa existência uma finalidade e um critério pode esperar-nos na secção dos livros em segunda mão, dos livros deteriorados ou em saldo. Podemos encontrá-lo, poeirento e esquecido, numa secção exactamente ao lado do livro que buscamos. A estranha sonoridade da palavra impressa na capa gasta pode então captar o nosso olhar: Zaratustra, Diván Oriental y Occidental, Moby Dick, Orcynus Orca. Enquanto um texto sobreviver, em algum lugar desta terra, mesmo que seja num silêncio que nada vem romper, é sempre capaz de ressuscitar. Walter Benjamin ensinou-o, Borges fez a sua mitologia: um livro autêntico nunca é impaciente. Pode aguardar séculos para despertar um sopro de vida. Pode estar à venda por metade do preço numa estação de caminho de ferro, como estava o primeiro Celan que descobri por acaso e abri. Desde aquele momento fortuito, a minha vida transformou-se e tenho tentado aprender "uma língua ao norte do futuro".»
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George Steiner, Los logócratas, Madrid, Siruela, 2006, p. 55.
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Aqui e sempre, um livro é o que quisermos.

Tuesday, December 11, 2007

Depois da eterna primavera sem passar pelo verão

De manhã, pela janela, a parte alta da cidade batida pela tímida brancura do sol. Mas há agora mais espaço no trajecto quotidiano do olhar: a magreza recente das árvores, com a agonizante coroa de folhas lá no cimo, deixa ver as casas quase ao rés do rio, normalmente invisíveis entre abril e novembro. E de repente percebi que as folhas, a sua presença ou a sua ausência, e aquilo que permitem ou não ver são afinal aquilo que quisermos. As casas do rio sempre lá estiveram, mesmo invisíveis, ou se calhar eu devia dizer exactamente o contrário - as árvores sempre estiveram nuas e nós é que insistimos em ver, na desamparada nudez dos seus troncos, a cega opulência das folhas.

Wednesday, October 17, 2007

O centro da terra - 4, ou variação sobre rosas no dia dos teus anos

Como as rosas selvagens, que nascem
em qualquer canto, o amor também pode nascer
de onde menos esperamos. O seu campo
é infinito: alma e corpo. E, para além deles,
o mundo das sensações, onde se entra sem
bater à porta, como se esta porta estivesse sempre
aberta para quem quiser entrar.
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Tu, que me ensinas o que é o
amor, colheste essas rosas selvagens: a sua
púrpura brilha no teu rosto. O seu perfume
corre-te pelo peito, derrama-se no estuário
do ventre, sobe até aos cabelos que se soltam
por entre a brisa dos murmúrios. Roubo aos teus
lábios as suas pétalas.
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E se essas rosas não murcham, com
o tempo, é porque o amor as alimenta.
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Nuno Júdice, Pedro, lembrando Inês, Lisboa, D. Quixote, 2001, p. 11.

Friday, October 12, 2007

O centro da terra - 3. O lenço

Egon Schiele, Girl with yellow scarf
Tinham ficado a olhar em silêncio um para o outro, depois do amor. A mão do homem descia lenta pelo cabelo da mulher, uma vez e outra e outra, numa carícia quase aérea ao rés da face, e nesse momento a mulher soube que nunca mais haveria de ser tocada por outras mãos. Mergulhou mais fundo nos olhos do homem, para ouvir melhor o que ele calava, e depois sorriu ao de leve para si, aninhando-se devagar na concha morna dos seus braços. Preciso que deixes comigo alguma coisa tua, disse a mulher, para me guiar os passos nos dias, talvez anos, que virão. Prometo que se assim for te procuro, disse o homem, só não sei como fazer agora para voltar ao inferno do mundo, às pessoas em redor, aos objectos, à baça luz das coisas. A mulher não lhe respondeu - também ela sentia essa mesma espinha de aço atravessar-lhe o coração. O homem deixou-lhe duas fotografias e um lenço, que a mulher soube imediatamente que passaria a usar, prolongando o calor da sua mão, como se de uma aliança se tratasse. Sim, não importa que seja daqui a meses, ou anos, muitos anos, pensou ela, aqui estarei à tua espera como só tu sabes que estarei. E o homem soube, no horror do adeus, como isso era rigorosamente verdade.

Friday, September 28, 2007

O centro da terra - 2, ou Roseman Bridge

Roseman Bridge
A mulher tinha pensado rever o filme ainda nessa noite e por isso acabara de o pedir ao amigo a quem o tinha emprestado. Era tarde para quase tudo menos para isso e naquele momento levava o pequeno rectângulo de plástico ao lado da mala, no assento do carro, com o abraço eterno da Meryl Streep e do Clint Eastwood fixando obliquamente a sua espera. Entretanto entrou na ponte e olhou ocasionalmente para o lado, ultrapassando um Passat cinzento que rolava devagar. Como o dele, pensou. E olhou melhor e viu com espanto que era ele. Sorriu para si porque de repente entendeu e mudou-se devagar para a faixa da direita. Não havia mais carros sobre a ponte e mesmo quando depois outros carros apareceram continuaram só os dois em cima dela, muito devagarinho, a mulher à frente e o homem atrás, até que na rotunda ela fez sinal para virar à esquerda, sabendo que o homem seguiria em frente. Não chovia e nenhuma mão segurava com força o trinco da porta do carro. A mulher disse-lhe apenas boa-noite, meu amor, e soube que quando chegasse a casa haveria de arrumar o filme na estante.

Friday, September 21, 2007

O centro da terra

Neil Jordan, The End of the Affair, sobre o romance homónimo de Graham Greene
O amor não acaba só porque deixaremos de nos ver - disse Sarah -, também amamos Deus durante toda a vida sem nunca o termos visto. Não é esse o meu tipo de amor, respondeu Bendrix. Mas talvez, disse Sarah, seja esse o único que existe. A história de Graham Greene não termina exactamente aqui - diz agora a mulher. E o homem concorda - sim, prometo, e depois então voltaremos ao romance, ao filme, ao Greene. E beijou-a uma vez mais contra a parede, devorando com a alma o vazio que seria enquanto lá por dentro odiava Deus um pouco mais.

Monday, August 27, 2007

Sete rosas mais cedo

Numa sala da biblioteca Vergílio Ferreira, em Gouveia, e por isso um pouco mais perto de Eduardo Prado Coelho e de algumas das palavras que ele tanto amou. Há já alguns anos, num colóquio em Sintra sobre a obra do autor de Para Sempre, ouvi-o falar sobre a alma da fotografia na obra de Vergílio e creio que as pessoas que lá estavam se lembrarão ainda desse momento de puro encantamento em que não o ouvimos falar bem a ele, mas a Vergílio Ferreira através dele, ou se calhar a nenhum dos dois, mas ao espírito daquilo que nos faz amar a literatura e o seu imperceptível rumor. Alguns anos mais tarde li as palavras que Eduardo Prado Coelho escreveu no seu Fio do Horizonte sobre um dos filmes da minha vida, In the mood for love, do Kar-Wai, e que me levaram, não sei bem se elas ou o filme depois delas, à sessão do meio-dia no Saldanha durante quatro dias seguidos. Neste momento em que me apetece recordá-lo, mais do que os momentos de convívio pessoal, são estes os momentos que involuntariamente lembro e assim é que deve estar certo.

Friday, July 27, 2007

Triz

Himalaias, K2

Se te disser que vamos sair em viagem, não rias:

os nossos pés habitaram sempre o triz do precipício.

Vasco Gato, Um mover de mão, Lisboa, Assírio e Alvim, 2000, p. 23.

Sunday, July 22, 2007

Momento 2

O ar entontecia na brisa líquida da tarde. Nas tábuas por sobre as dunas os nossos passos a medo, vagamente intrusos na toca vegetal dos cardos.

Saturday, July 21, 2007

Momento

Há por vezes na vida das pessoas momentos irrepetíveis e, com alguma sorte, vamos dando conta de que o são enquanto os estamos a viver. E depois queremos ter a certeza que eles existiram mesmo, que foram reais e que nós estávamos lá para nos vermos vivendo-os. Estas palavras tomam assim a forma da minha certeza, uma espécie de certeza roubada ao canto que a boca recusa por não saber como cantar. A noite caiu há muito sobre a casa e a cidade. Ficaram comigo ecos vários, de uma asa que voa.

Saturday, April 14, 2007

Pausa

Trabalho, trabalho, trabalho. Muito trabalho, tempo nenhum e depois mais trabalho. E depois do trabalho quinze dias de Brasil. O regresso, tantos anos depois. E o regresso aqui, tantos dias depois.

Wednesday, February 21, 2007

O santuário e a sua porta ou um pequeno ensaio em madeira sobre a Verdade

Era uma vez uma exposição de arte africana: máscaras de dança, máscaras de defuntos, imagens de pequenos deuses, uma porta de santuário e um portentoso ensaio sobre a Verdade esculpindo sabiamente a madeira. E vi a exposição uma vez, e não a vi quando a vi, e voltei a vê-la novamente depois de a ter visto através das palavras que a viram (por) para mim. Revê-la foi já olhar para a espessura intransponível daquela porta de santuário e do seu sagrado. Revê-la foi sobretudo contemplar a história fechada de uma história no imprevisto arranjo de pigmentos vários, sobre o desenho redondo da madeira. Era uma escultura com quatro figuras humanas dispostas em círculo, olhando cada uma delas na direcção dos quatro pontos cardeais, com um camaleão em cima das quatro cabeças. Sim, a Verdade (mas podíamos dizer todo o real) depende sempre do ponto de vista a partir do qual a olhamos e, tal como um camaleão, vai mudando em função do contexto a partir do qual julgamos percebê-la. Morte e vida, vida e morte, no andamento circular da cor no rosto das quatro figuras: o branco de que aparecem vestidos os negros à nascença, o preto da idade adulta e de novo o branco apoiando simbolicamente a morte. Qualquer morte. Filosoficamente perfeito. Cristalinamente simples. Meses de uma vida de repente retratados ali: o branco-branco do início, o branco-negro do meu deus como é possível e depois o negro-branco do fim. Porque a verdade de qualquer verdade depende sempre do lugar de onde a olhamos e esse lugar em mudança vai aos poucos alterando o seu sentido como se atingido pela sábia verdade do camaleão. E o que vemos no depois da mudança não é já (não pode ser) o que víamos no antes dela.

Sunday, January 21, 2007

Fiama, o olhar total

Tantos poetas morreram, em minha vida,
antes de mim, não só no sangue ou só na carne,
mas na portuguesa língua.
Deles fica a obra que fizeram.
Todavia vocábulos, para sempre
insonoros, ou no futuro incriados,
demonstram que os poetas todos
morrem sempre mais na língua.
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Fiama Hasse Pais Brandão, Cenas Vivas, Lisboa, Relógio d'Água, 2000.
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(Não fui lá, como há anos prometi que iria, porque não fazia sentido já que fosse.)

Saturday, January 20, 2007

A primeira manhã

A mulher virou-se devagar para o homem e disse-lhe baixinho empresta-me os teus olhos. Ensina-me como se move na água o lento perfil dos barcos, como anoitece no ocre o ramo impreciso da luz, qual o cheiro dos limos no eco mais fundo da noite. Dá-me a cidade de ti. E o homem respondeu-lhe dou-te os meus olhos se neles estiverem também os teus, porque são eles agora que me ajudarão a ver. A mulher sorriu e reclinou ao de leve a cabeça no ombro do homem, apertando bem o casaco contra a insidiosa lâmina do ar. É noite, está frio, disse o homem, vamos embora, que te quero para mim sem a testemunha da água e do ocre e dos limos cor de mágoa. A mulher nada disse, até que a porta do quarto se fechou finalmente sobre os dois, num silêncio de casulo que rarefazia o ar. Deixa-me atravessar a porta do teu corpo para o lado de lá, pediu ela. Sabias que um corpo é uma porta, não sabias? Uma porta sobre outra porta ainda? Sim, respondeu ele, eu sei, abre então esta minha porta feita de ossos, pele e músculos, que há tanto tempo eu te esperava no mapa das cidades invisíveis. Eu sou um pouco as portas que tenho, disse por sua vez a mulher. Toma-me para ti como se entrasses num templo, acrescentou, sabemos ambos que o sagrado começa aqui. Nenhum dos dois disse mais nada e muito tempo depois, ao primeiro acorde, ainda tímido, da luz, a mulher espreitou atenta o sono do homem, levantou-se e foi abrir a janela sobre o canal, ainda escuro sob o trémulo desenho das casas. Ficou por momentos imóvel, de olhos fixos no percurso ascendente da luz, e depois repetiu para si, ecoando em silêncio as palavras do mestre: «esta é a primeira manhã do mundo. Nunca esta cor rosa amarelecendo para branco quente pousou assim na face com que o casario de oeste encara cheio de olhos vidrados o silêncio que vem na luz crescente. Nunca houve esta hora, nem esta luz, nem este meu ser. Amanhã o que for será outra coisa e o que eu vir será visto por olhos recompostos, cheios de uma nova visão.»

Wednesday, January 17, 2007

O pronome

Italic Paul Klee, New Harmony, 1936

É isto mesmo que é preciso, uma nova harmonia. E harmonia não é aqui bem um "nome", é um quase "pronome", porque está em vez do nome. De qualquer outro nome.

Sunday, January 14, 2007

Auto-retrato

Serra da Estrela, 22 de Dezembro de 2006
No início fugia-nos por entre as mãos, mas no início era o Verão, ou o Outono, ou mesmo já o Inverno, porém ainda sem o gume do frio cortando a fatia invisível do ar - o estado líquido de ser. Depois, gota a gota, o ritmo perdeu-se na cadência regressiva do termómetro, como um corpo humano que de repente perdesse o pulso - a paragem do sangue, por entre as ervas descarnadas saídas da negra dureza do granito. A fotografia, que normalmente fixa na lente o andamento fugidio da matéria, não suprime aqui o sentido real do movimento, paralisando o fluir da água no exacto momento do disparo: esta imagem reproduz apenas a fotografia que o mundo a si próprio se tirou, num auto-retrato involuntário de quem só se limita a ser, uma vez que a natureza não age, a natureza apenas é. A fotografia já lá estava antes do fotógrafo chegar. Como se vê, o mundo passa muito bem sem nós.

Wednesday, December 13, 2006

Marilyn

De mim para ti - disse a mulher -, até ao fim do mundo que me deste. E o homem sorriu.

Sunday, December 10, 2006

O veado

A Rainha, de Stephen Frears. Como sempre, na primeira fila até se apagarem as luzes e depois umas filas mais atrás, de modo a não ter ninguém entre mim e o ecrã. A citação inicial de Shakespeare («uneasy lies the head that wears a crown», do Henrique IV) já tinha dado um pouco o tom - o do dilema entre o público e o privado, o dever e o sentimento, a responsabilidade e a defesa do humano -, embora só muito mais tarde a densidade psicológica da rainha acabe por se revelar ao espectador. Não, este não é um filme sobre a tumultuosa semana anterior ao funeral de Diana, nem sobre a forma como a família real inglesa reagiu ao inesperado do acontecimento: é um filme sobre o peso espartilhante da coroa na vida de uma mulher, tomando como motivo directo as consequências geradas pelo fatídico acidente de Paris. E esse peso não é coisa que possa mostrar-se para espectador ver, porque é tudo menos simples, como afirmava Geraldine Chaplin no fim de um filme muito meu - «Eu sou professora de ballet e posso garantir-lhe que nada é simples». De facto, é preciso ler um pouco para lá do concreto da imagem, espreitando insidiosamente o reverso das duas extraordinárias cenas do veado (primeiro a da sua liberdade, depois a da sua captura), onde está em síntese todo o percurso biográfico de abdicação da rainha, irrepreensivelmente interpretada por Helen Mirren. Nunca saberemos se foi assim que tudo realmente sucedeu, mas isso não importa, porque se não foi assim poderia perfeitamente ter sido, até porque este exercício de indagação ficcional da verdade é quase tão importante para a eventual fixação da mesma como a narrativa exacta dos factos. Como quase sempre me acontece, do filme de Frears ficou-me sobretudo uma imagem - a do veado passeando tranquilo pelos campos da Escócia e a da comoção da rainha ao olhar para ele. Um filme em grande.

Tuesday, December 05, 2006

05.12.2006 (O início)

05.12.2006 (Balanço)

BALANÇO
Que fica de quem passa? Um eco de mágoa
ao ouvido da tarde? Uma pausa de palavras
na frase do instante? Uma interrupção de passos
a caminho da porta? Um sal de sentimento
no coração da amada? A vida esfarelada
numa dissipação de rumos? Ou um peso
de esquecimento na sombra da memória?
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Mas quem passa não pensa no que fica,
se os passos o levam para onde espera
ficar; e se o seu destino é a passagem,
onde ficar é sair de onde não chegou a
habitar, é o tempo que o obriga a não olhar
para onde não há-de voltar, mesmo que aí
tenha deixado o que pensou consigo levar.
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Náufrago sem ilha nem barco, ou
marinheiro preso ao porto, é ele o seu próprio
fim, como se a cada momento não soubesse
que não é dele o que leva, e só é dele o
que perde, como se o não quisesse guardar,
para que chegue mais depressa, ao cair da noite,
a esse cais onde ninguém o irá esperar.
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E repete, então, o que não devia fazer, para tudo
fazer de novo, como se tivesse de o fazer.
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Nuno Júdice, As coisas mais simples, Lisboa, Dom Quixote, 2006, p.52.

Sunday, December 03, 2006

A roupa das pestanas

Às vezes a elegância não é mais do que um leve poisar de olhos. Tiremos-lhe o chapéu, a negra esquadria do vestido e veremos que continua vestida. O olhar, o olhar. A ver se me lembro disto daqui a dias, quando também eu tiver que vestir a alma com a requintada roupa das pestanas.

Friday, December 01, 2006

Roleta russa

Odilon Redon, The Closed Eyes
Era uma mulher ainda jovem e esperara pacientemente no passeio que o sinal ficasse verde para os carros. Quando parei à sua frente, ela avançou um passo convicto no largo xadrez da passadeira e fechou os olhos com força, atravessando o mármore preto e branco do asfalto sem sequer soerguer as pestanas. Não sei se fechou os olhos para não ver o carro que cruzou apressado o claro adesivo das riscas ou se, pelo contrário, os fechou na vã esperança de ser apanhada por ele. Foi uma estranha roleta russa, sem balas nem canos de armas, mas com ferros, motores e a pressa redonda dos pneus. Quando a mulher atingiu o passeio oposto, abriu os olhos e continuou calmamente o seu caminho, tão serena como se levasse o destino na concha bordada das mãos.

Wednesday, November 29, 2006

A mesa vazia

De Chirico, Mélancholie hermétique
VERTIGEM
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Na circunstância da noite procuro o que resta
do ocaso: fragmentos de vermelho, o desenho
dos lábios no papel da memória, dedos
dobrando o fim do dia. Num sentido tão
preciso como a insistência do som, ouço
ainda a tua voz. Espalho-a nesta mesa
vazia, coberta pela toalha da obscuridade;
e recolho, por entre instantes de silêncio,
a sua entoação mais doce. Assim, chego
ao significado das coisas que estão para
além das palavras, como se não houvesse
aqui mais do que a vida, estremecendo
com a sua vibração de acasos, de encontros,
ou de uma decisão inexplicável contra a
inércia dos rumos. Não preciso, então, de
te dizer mais do que isto. O diálogo
chega ao fim, como esta noite, e a mesa
volta a ficar vazia, no centro do coração.
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Nuno Júdice, Geometria Variável, Lisboa, Dom Quixote, 2005, p.126.

Monday, November 27, 2006

Desert thoughts - 4

A mulher acreditou que talvez fosse possível chegar lá, apesar dos vários mundos que a separavam do desejado futuro dos seus passos. E talvez fosse possível, apesar do calor, da sede, do sol a pique e da violência da areia no perfil obtuso da hora. Talvez sim, talvez consiga, pensava ela, esquecendo por momentos que afinal transportava lá dentro, no oco mais oco de si, a carcaça já óssea do sangue. Mas aquilo na fotografia não é um esqueleto humano, disse o homem bem dentro da cabeça da mulher. Pois não, lembrou ela, é apenas o cadáver de um animal à beira de se tornar gente, porque é o corpo de alguém ainda com a ilusão dentro. É verdade que não chegou onde queria, coitado, tal como eu provavelmente também não chegarei, mas diz a História que o importante não é chegar onde se quer, o importante são as marcas que vamos deixando ao longo do caminho percorrido. A mulher olhou uma vez mais para a redondez da fenda aberta na areia, por detrás do corpo do animal com a ilusão dentro, e sorriu vagamente enquanto contemplava os vales profundos que guardava nas mãos.

Louvor e Simplificação de Mário Cesariny

Melancolia, António Dacosta (1942)

Era para estar aqui um poema em louvor do poeta, mas basta a melancolia do pintor e o nome simplificando o homem - Mário Cesariny de Vasconcelos (1923-2006).

Saturday, November 25, 2006

Quando um homem se apressa para a ruína, os deuses ajudam

E de facto ajudaram. Depois de dois dias de colóquio sobre o tema da ruína, os deuses obedeceram ao apelo humano e fizeram de Aveiro o objecto privilegiado do seu castigo. A meio da tarde de ontem, os ramos das árvores começaram a levantar voo no severo caos do ar, num movimento inverso ao das gaivotas, que imediatamente abandonaram a convulsão da água e avançaram firmes na direcção da terra. Enquanto um colega dissertava sobre a tragédia de Ésquilo e sobre a dita ajuda dos deuses, ao apressar-se o homem para a ruína, olhei para fora através do vidro e lá estavam as gaivotas, pousadas na precária solidez da beira-ria e lado a lado com os patos, medrosamente agachados na erva e formando ao longe um perfil quase esférico de penas. Quando saí em busca do carro, o chão era um estranho tapete de guarda-chuvas, restos esgalhados de arbusto e folhas sem tronco atrás, tudo arrancado ao seu costumeiro aprumo pela fúria da chuva e do vento e pela (in)justa ira dos deuses. Não havia comboios, a estação de Aveiro parecia a foz do Ganges e os autocarros pareciam ter-se sumido no labirinto aéreo da tarde, juntamente com o cadáver vegetal das folhas. Colegas voltaram conformadamente para trás, de regresso ao hotel de onde tinham acabado de sair, outros encontraram milagrosas boleias, outro ainda teve uma avaria no carro e eu pus-me a caminho de casa, decidida a enfrentar a divina ironia de Zeus com o rolar prudente e vagaroso dos pneus. Dizem que Deus não dorme, mas às vezes ressona muito.

Wednesday, November 22, 2006

A casa

A casa onde às vezes regresso

A casa onde às vezes regresso é tão distante

da que deixei pela manhã

no mundo

a água tomou o lugar de tudo

reúno baldes, estes vasos guardados

mas chove sem parar há muitos anos

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Durmo no mar, durmo ao lado de meu pai

uma viagem se deu

entre as mãos e o furor

uma viagem se deu: a noite abate-se fechada

sobre o corpo

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Tivesse ainda tempo e entregava-te

o coração

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José Tolentino Mendonça, A Que Distância Deixaste o Coração.

Tuesday, November 21, 2006

Dr. House

Já lá vai o tempo em que o canal Fox exibia todos os fins de tarde um novo episódio da série Dr. House, que muitas vezes me fez chegar mais cedo a casa. Depois a TVI passou a exibi-la à improvável hora dos bons programas e eu perdi-lhe um pouco o rasto ... até há pouco, uma vez que os indefectíveis da série, entre os quais eu me incluo, passam a ter agora ao alcance de uns quantos euros os 22 episódios inteirinhos da primeira temporada. Não, não digam que Dr. House é uma série de hospital, apesar do seu espaço ficcional corresponder efectivamente ao de um hospital. Porque aqui não é preciso esventrar criaturas nem exagerar na visibilidade do sangue para que o efeito de real perdure - basta apenas o espectáculo da inteligência e a finura do humor evidenciados pela série, associados à inacreditável personagem que é Gregory House, um verdadeiro eremita com muita pena da sua solidão. Para as mulheres, House representa nada mais nada menos que o princípio da perdição: é bonito e sensual, mas é sobretudo detentor daquela pose rafeira de cão sem dono que logo estimula no sexo oposto o estúpido desejo de protecção, que é onde sempre mora o perigo. Mas o House é, felizmente, apenas uma figura de ficção, de modo que me permiti oferecê-lo a mim própria como presente de Natal. Ontem trouxe-o da Fnac e é com ele que vou passar o meu serão, já já a seguir. Chhhhh! O House vem aí...

Saturday, November 18, 2006

Desert thoughts - 3

Monument Valley
OCRE
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O manto de deus envolve-me o ocre.
Inclino o céu para oriente, ao arrepio de tudo.
Sobre mim deslizam as colinas
e o líquido azul por entre as nuvens.
Velam-se as rochas na tarde
que exala o abismo - e arde.
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Isabel Cristina Pires, Deserto Pintado, Lisboa, Caminho, 2006.

Thursday, November 16, 2006

A ferro e fogo (lento)

Do realizador coreano Kim Ki-Duk, o filme 3-iron retoma algo de fundamental do anterior Spring, Summer, Fall, Winter... Spring: o entendimento do tempo como um devir absolutamente inexpugnável e a sua vivência como íntima construção do homem. Mas 3-iron não é propriamente um filme sobre o tempo e os seus efeitos, como o era Spring..., mas um filme sobre a solidão dos homens e o papel do silêncio na denúncia e/ou sublimação dessa mesma solidão. Tae-suk vagueia pelas ruas na sua mota em busca de casas temporariamente desabitadas onde possa viver sozinho a ficção de uma família, fazendo-se retratar ao lado das fotografias que vai encontrando de casa em casa e refazendo as tarefas domésticas de quem não está para que ele possa estar - lavar a roupa suja e consertar electrodomésticos avariados. Não, não me parece que o faça numa tentativa de retribuir a involuntária hospedagem dos proprietários, mas de modo a tentar estabelecer com o espaço simbólico do lar uma ambígua forma de pertença. Até que Tae-suk encontra Sun-hwa numa dessas casas, uma bela mulher maltratada pelo marido e que parte com ele em busca da mesma ficção que impulsionava as solitárias derivas de Tae-suk. A experiência conjunta da rotina doméstica, vivida nas casas por onde vão passando, acaba por sedimentar em ambos o lento trabalhar da maior e da mais silenciosa de todas as ficções - o amor, um amor integral que a mútua solidão acabou por converter em destino para a vida. Mas dito isto é como se não tivesse dito nada, porque isto não é na verdade o filme, mas apenas o motivo dele. O verdadeiro filme está na elegantíssima exploração do implícito e do não-dito como factor primordial de intensificação da intimidade entre Tae-suk e Sun-hwa; está na terrível beleza da música de Natacha Atlas, que acompanha a progressiva aproximação dos futuros amantes como se fosse uma espécie de íntima rima das almas, em trânsito convergente para o mesmo inevitável centro; está no sábio movimento das bolas de golfe à roda do ferro nº3 - desde a lentidão com que a bola é inicialmente trocada entre Tae e Sun (e este é talvez o seu único "diálogo" ao longo do filme) à violência que depois lhe imprimem tanto o próprio Tae como o enciumado marido de Sun. E está sobretudo, mas sobretudo, nos belíssimos momentos finais em que não existe nem o fantástico nem o fantasmático, porque existe apenas a encenação de uma muito rara capacidade - a de vivermos o amor apenas dentro de nós quando o outro nos falta e tudo é para nós como se não faltasse. Porque o amor resume-se afinal a um imóvel ponteiro de balança pousado no zero, com um imaginário prato em cima a tentar suportar o peso imaterial do coração. Obrigada, Paulo, por mais isto.

Wednesday, November 15, 2006

O poema

Trey, Silent Poem II

Hoje devia estar aqui um poema. E está.

Tuesday, November 14, 2006

Desert thoughts - 2

A mulher chegou-se à janela e passou a cortina branca para trás da cabeça, encostando muito o nariz ao vidro. Nem era bem um vidro, era um pequeno espelho mudo que de vez em quando lhe permitia atravessar a estrada para o lado de lá, onde acabava a cidade e o deserto começava. Pousou maquinalmente a mão na lisa superfície do vidro e verificou sem surpresa que estava morna. Seria, como sempre, dos raios ainda oblíquos da manhã ou então da nocturna respiração das paredes, saturadas que estavam do hálito difícil e pegajoso do homem. A mulher soprou ao de leve na incerta direcção do deserto e uma nuvem de pequenas gotas colou-se ao fundo luminoso da tela. Com o dedo indicador desenhou a medo a brusca linha dos montes e só depois a fundura horizontal da terra, com o olhar vazio de quem já não espera a fortuna irreal do movimento. Eu pertenço ali, disse para si a mulher, pertenço ao lume intenso daquele frio e à pura incandescência da hora, ao grito agudo dos ventos e ao redondo desamparo das pedras. Ao eterno abandono do tempo, à desolação final dos bichos e ao côncavo silêncio da terra. Eu pertenço ali. O relógio gemeu timidamente as horas, vibrando um desacerto de madeiras no ninho invisível da parede, e a mulher atravessou novamente a estrada, agora na direcção contrária e galgando atabalhoadamente, na estudada pressa dos chinelos, o pequeno muro logo a seguir à relva. Um branco trejeito de renda voltou a cair sobre a face vidrada do espelho e a mulher foi-se aos poucos afastando, esquecendo por momentos a janela onde faiscavam agora pequenos cristais de areia, acabando por se perder definitivamente nos densos e obscuros corredores da casa.

Monday, November 13, 2006

Another brick in the wall

Amanhã é segunda-feira. Demasiadas horas de aula, demasiados alunos, demasiado tudo até bem ao início da noite. No fim a cabeça esvaída, o sopro rouco da voz, a estranha sensação de já nada ter cá dentro, depois de tanta coisa dada a tanta gente. Segunda-feira. Mais uma. E menos uma depois.

Sunday, November 12, 2006

Pequeno contributo para uma blogoética

Mosaico de Conímbriga
Há cerca de dois dias atrás, José Pacheco Pereira publicou nas páginas do Público um artigo que (estou certa) não terá deixado indiferentes algumas das pessoas que povoam o imenso labirinto da blogoesfera. «A diferença entre um quiosque e a blogoesfera», assim se chama o texto do nosso historiador, inteligente como sempre. Aparentemente despoletado pelos recentes episódios vividos por Miguel Sousa Tavares e Eduardo Prado Coelho, o artigo deriva depois para as razões do lixo e do luxo que todos os dias circula por aí em forma de blogue. Pacheco Pereira fala em 90% de lixo e em 10% de luxo, mas confesso que não é propriamente a questão das percentagens que aqui me importa. Que é infinitamente mais elevada a mediocridade do que a excelência? Pois claro que sim, tal como acontece em qualquer outro domínio onde intervenha a mão humana, a começar pela comunicação social que temos e a acabar na literatura que produzimos. O problema maior está, parece-me, na incontrolável desresponsabilização da palavra possibilitada pelo blogodiscurso, por oposição à ainda relativa responsabilidade imputável à palavra impressa. Como lembra o próprio Pacheco Pereira, «os jornais e as revistas têm responsáveis e não são como as cartas anónimas, ou os blogues que funcionam como cartas anónimas». Porque a acrescentar ao lixo da mediocridade, há ainda o lixo da anonímia que atinge blogues inteiros («os degraus superiores do inferno») e caixas de comentário inseridas em blogues assinados («as furnas da Internet»). Uma coisa e outra contradizem uma ética que não o é apenas da blogoesfera, porque o é, antes de mais, da própria escrita. E a ética da escrita exige que nos lembremos sempre que as palavras levam pessoas dentro e que essas pessoas têm um nome. Mais, que essas pessoas têm que ter nome se queremos preservar um sentido mínimo de decência no uso que fazemos das palavras. Pessoalmente, e porque as palavras me merecem um imenso respeito, nunca me passou pela cabeça, no momento de criar este blogue, ocultar o meu nome atrás de um pseudónimo, ou atrás de qualquer outro artifício que me permitisse escrever (ou comentar o que outros escrevem) na cobardia da sombra. A anonímia é inimiga da blogoética não porque os bloguistas anónimos possam escrever ultrajes ao seu abrigo (como no caso que envolveu M. Sousa Tavares), mas porque mesmo no momento do louvor é inimiga do sentido de ética que deveria marcar a vida dos homens. Por isso a caixa de comentários dos meus posts está actualmente vazia. É uma forma de protesto pela irresponsabilidade (chamemos-lhe assim) de quem ousa escrever sem o seu nome por trás.
À condenação da anonímia eu acrescentaria ainda a defesa do direito à pura ficção na blogoesfera. Na verdade, convencionou-se que um blogue era uma espécie de diário online, introduzindo-se, assim, no espírito das pessoas a convicção de que nele só poderia vigorar o mesmo princípio que atinge o seu autor na vida quotidiana - a real autenticidade dos factos, vividos ou imaginados. Nada mais falso, ou melhor, nada mais saudavelmente falso e pela mesma razão que levou Vergílio Ferreira a advertir da sua completa insinceridade no diário que escreveu e do seu muito maior despudor no romance: «A ficção lança uma cortina disso mesmo à nossa volta e defendidos por ela dizemos tudo. Quem escreve uma carta ou um diário sabe que se pressupõe que se vai dizer a verdade. E isso mobiliza logo em nós uma estratégia de defesa. O diarista, portanto, mais que o ficcionista, controla os meios e modo de expressar-se para que esta confissão - que sabe irá julgar-se "verdadeira" - seja apenas aquilo que ele quer que seja.» Touché. De modo que, com os olhos postos na sabedoria do mestre, continuarei aqui a escrever as minhas pequenas ficções (ao lado de breves apontamentos que não o são tanto), mais do que a escrever-me a mim própria nas ficções que escrevo, até porque é também por esse caminho que se busca a «respiração da verdadeira literatura», como tão simpaticamente se referiu ao conteúdo deste meu blogue o autor do Auto-retrato (http://retrato-auto.blogspot.com).

Saturday, November 11, 2006

Poema dos remotos vestidos

Michael J. Austin, Black Drape

Para ti, Paulo

NUDEZ

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Vertical, pelo corpo

a nudez principia

como a primavera no tempo

ou a luz junto dos olhos.

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Pressentida verdade

que nos une. Em silêncio

regressamos à origem

dessa praia longínqua.

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Ali, nenhuma imagem

altera o seu destino.

Como um fruto, procura

a direcção da terra.

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Apenas as nossas mãos

ignoradas desprendem

os cabelos: memória

de remotos vestidos.

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Fernando Guimarães, Poesias Completas, vol. I, Porto, Edições Afrontamento, 1994, p. 49.

Thursday, November 09, 2006

Memória dos remotos vestidos

Era já de noite quando a mulher saíu de casa. Levava nos passos a suspeita de um encontro nupcial e foi assim que parou, com a pele à flor da hora, na concha listrada da última rotunda. Uma farda de polícia com barriga dentro, indiferente ao difícil trânsito do amor, parou-lhe logo ao lado e mandou-a seguir friamente o seu caminho - que não, que não podia estar ali -, de modo que a mulher deu mais duas voltas ao compasso exacto da rotunda, procurando nervosamente o homem na pressa tardia dos faróis, por entre o nocturno cansaço dos vastos fumos urbanos. Àquela hora os automóveis já não tinham cor, eram apenas dois imensos olhos, acesos de luz, que a cada passagem iam cegando a lenta espera da mulher. Mais tarde, de novo em casa e em face do mútuo desalinho da roupa, a mulher lembrou-se do último verso de um poema muito seu e sorriu ao de leve, repetindo só para si a memória dos remotos vestidos. Às vezes a vida tem coisas muito bonitas, disse o homem, olhando sem medo a fundura dos olhos da mulher. Mas depois o medo voltou e o homem ausentou-se um pouco, de olhos fechados e vagamente desconfiado da bondade divina do milagre. A mulher percebeu mas nada disse - se ele não tivesse medo não estaria aqui, pensou. E apertou-o mais contra si.

Wednesday, November 08, 2006

Ana carolina & Seu Jorge

É isso aí. Ana Carolina é felizmente uma descoberta antiga, desde os seus tempos de "Trancado", "Nada para mim" ou "A canção tocou na hora errada". É exemplar o poder da sua voz e a elegância absolutamente implacável das suas composições. Isso e muito mais fizeram o extremo sucesso do ainda recente Estampado. Uma Ana Carolina em grande forma, mostrando à saciedade por que é por muitos actualmente considerada uma das melhores (senão a melhor) vozes femininas do Brasil. Pois recentemente saíu o album de um seu concerto, juntamente com Seu Jorge. É isso aí e este é justamente o título da mais bela música que pude ouvir em muito tempo, numa parceria mais que perfeita entre feminino e masculino. Como cantam Ana e Jorge, eu não sei parar de te olhar.

Sunday, November 05, 2006

Desert thoughts - 1

Deserto da Namíbia

Deve haver algures uma ciência (in)certa do deserto, embora dela eu nada saiba ainda. Todavia, há espaços que, existindo, é como se me chamassem para o infinito novelo de si próprios. O meu deserto de nunca é o da trémula vertigem do silêncio, aquele que é quebrado apenas pela fundura dos passos que deixamos na areia e pelo bater desencontrado do coração, procurando no desalinho das veias a derradeira voz do sangue. Mas o deserto não pode ser logo essa visão total da infinitude - ele tem que nos ir crescendo pouco a pouco, seguindo de perto a lenta perfuração do olhar e a invenção dessa companhia de raízes que, em meio do nada irradiante, em nós nos vamos descobrindo. A verdadeira metafísica deve ter nascido aí.

Saturday, November 04, 2006

No recato da oração

Há muitos anos, num concerto de Caetano Veloso, um amigo meu (que era amigo de um amigo do próprio Caetano, também ali presente) perguntou-me no fim do espectáculo se eu gostaria de ir ao camarim falar um pouco com ele. Imediatamente tremi de terror, não porque receasse o que quer que fosse, mas apenas porque amava de mais o Caetano para isso. Por que diabo me haveria de interessar o homem por detrás do mito? Continuei, pois, a amá-lo através da distância necessária ao encantamento e até hoje a nossa relação não sofreu a mais pequena mácula. Ora, vem isto a propósito de ter eu há pouco lido, numa página do Público, o anúncio da presença de Lobo Antunes na Bertrand de um centro comercial de Coimbra. Amanhã, às quatro e meia da tarde. Instantaneamente, pus-me a pensar no que leva as pessoas a acotovelarem-se, agitadas e com o colo grávido de livros, em frente de um homem sentado atrás de uma secretária, de esferográfica em riste. É que ali não está o escritor, está apenas um homem que não tem, naquelas circunstâncias, provavelmente nada a dizer-lhes, a não ser que está ali para assinar os livros de um outro senhor realmente muito parecido consigo e que tem, imagine-se, o incrível vício de escrever livros. Por isso o meu escritor não descerá da estante amanhã, porque não creio que seja possível falar com ele a sério longe da sua particular oficina de escrita. E mesmo aí (ou sobretudo aí), como qualquer outro intruso, eu estaria já obviamente a mais. O que lhe diria eu, se por milagre me fosse mesmo possível vaguear por ali, como fazem as suas personagens? Provavelmente apenas isto - os seus livros ajudam-me a viver. Mas isto já ele deve saber, não porque o saiba de mim, mas porque sabe que é para isso que escreve - para poder viver e para ajudar os outros a viver. De modo que, por uma questão ou por outra, parece-me bem melhor ficar calmamente em casa, do lado de dentro da chuva, substituindo (com o gosto acrescido do pecado consumado) o que deveria estar a ler pelo que me apetece de facto ler, e abrir a sua Babilónia como quem se prepara para o doce recato da oração. Um livro redundante, dizem, um intervalo na sua obra ímpar, como ainda hoje li. Talvez, talvez. Mas mesmo que o seja, um intervalo é sempre mais um degrau na árdua escalada do verbo, até porque num escritor integral, como António Lobo Antunes, os intervalos não podem viver-se na total privação da palavra, mas na contínua e dolorosa maceração da escrita.

Thursday, November 02, 2006

Nespereira

Nespereira não estava assim, com o azul de Agosto sobre a Serra, mas o ar era ainda morno, levemente dourado das manchas de cobre nas folhas das videiras. A laje estava vazia do trabalho humano - nem grão, nem milho, nem a voz estrepitosa das mulheres ecoando no espaço. Havia silêncio e neblina e ainda o cimo impreciso da serra, aparecendo a espaços por entre a massa escura do céu, como se flutuasse no mar leitoso e sem peso das nuvens. Em casa um cheiro inesperado a casa habitada, morno também e confortável como um braço onde finalmente repousasse. Quando lá voltar, no Natal, já a súbita navalha do frio terá aquietado pessoas e rebanhos, revolvendo nervosamente o ar com o cheiro a lenha e a fumo das lareiras. Entrarei em casa, porei as mãos em concha viradas para o lume e direi apenas que está bem.

Tuesday, October 31, 2006

O búzio (antes de dormir)

Búzio

sei que nunca viste o oceano,
que nunca olhaste a onda sobre a onda,
que nunca fizeste castelos para o mar ser forte.
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mas sei que já viste o coração das coisas,
que já tocaste a ferida nos nossos braços,
que já escreveste para sempre o nome da terra.
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por isso te digo que vou levar-te o mar
na concha das minhas mãos, azulíssimo,
para que nele descubras o meu nome
entre os seixos os búzios os rostos que já tive.
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Vasco Gato, Um Mover de Mão

Sunday, October 29, 2006

As meias da dália negra

Que Dália Negra não é um filme revolucionário, pelo menos como parece ter sido Femme Fatale na carreira de Brian de Palma? Concedo. Que Scarlett Johansson e Hilary Swank estão (mais a primeira do que a segunda) notoriamente subaproveitadas, em personagens sem muita espessura, apesar da sua potencial riqueza? É verdade. Mas nada disso retira ao filme aquilo que ele também é - um elegantíssimo exercício de estilo sobre a idade de ouro do cinema americano. Ora a elegância de um realizador não é nunca de desprezar, porque, como também sucede com as outras pessoas, é mais rara do que se pensa. E depois (mas devia dizer sobretudo), o filme de Brian de Palma tem Mia Kirshner, em imagens inesquecíveis de inocência e fragilidade. A figura trágica por excelência. A cena em que Elizabeth Short revela entre risos a sua história, rompendo as meias com as mãos para conseguir dominar as lágrimas, vale o todo do filme. Não é sequer uma cena, é um poema de amor, tragédia e morte. Numa entrevista de casting, alguém pergunta à dália negra se ela conseguiria um dia representar a tristeza. Provavelmente não, se o tentasse com a disciplina da razão, mas não conheço em cinema uma tão bela imagem da tristeza como a das suas unhas insinuando-se pelos buracos das meias. Há imagens que valem um filme e actores que o valem também. Espantosa, espantosa Meryl Streep, que faz de um filme banal (O diabo veste Prada) um filme realmente com interesse. Esta senhora, tão elegante na pele de uma requintada editora de moda nova-iorquina como na de uma mulher de meia idade do Iowa, não vale todo o filme, é todo o filme. Muito, muito de vez em quando, há actrizes assim.

Friday, October 27, 2006

A ladrona de Lamego

Há semanas atrás resolvi ir à feira semanal do Bairro Norton de Matos, onde, confesso, nunca antes tinha posto o pé, e logo eu que gosto tanto de feiras de rua... Mea culpa, portanto. A manhã queimava de sol e gente na brancura dos toldos, onde boiavam ainda aromas e fumos de cozinha, como no poema do Cesário. De porcelanas reluzentes nem a sombra, mas o retalho da horta lá estava, ombro a ombro com centenas de jeans de marca roubados e outras tantas t-shirts, a preços tão incríveis como as tintas que nelas imitavam a cor da moda: vermelhos Gant e verdes Tommy Hilfiger, prometendo descorar à primeira suspeita de água. Uma cigana jovem, de larga trança preta pela cinta, subia convicta a um banco as suas grossas meias, calçadas por fora do fato de treino escondido pelo avental de ramagens, e apregoava alegremente os produtos de boutique que dizia vender. -Isto é produto de botica! 5 euros! Olhei divertida para a fúria respigadora das clientes e logo a seguir para o perigoso desenho das saias, de costuras esgaçadas pela pressa momentânea da posse. Um passo mais e quilos de malas de senhora revolviam-se numa longa e confusa banca, encabeçada por uma cigana mais velha carregada de oiros. Tal como certos bombons de anúncio, aquela também não era uma cigana qualquer. Esperta que nem um alho, sabia vender melhor o espectáculo de si própria do que as malas que se lhe amontoavam aos pés. Com o altifalante bem afiado e um possante microfone no repolho tosco das mãos lá ia esgoelando a sua história: - Podem escolher à vontade, minhas lindas, façam favor de escolher, 20 euros! Só peço que não me roubem, que para isso estou cá eu, a ladrona de Lamego! A cigana que rouba de noite para vender de dia! Quem passava ria-se e ela aproveitava para chocalhar vagamente os braços, contente do poder instantâneo das suas palavras, lançadas assim do poleiro da banca para a turba compradora cá em baixo. A manhã ia avançando, indiferente à hora, e os braçados tesos das nabiças começavam finalmente a definhar, com as folhas já moles no plástico descuidado das bacias. Um rasto de poeira e de suor perseguia devagar os passos apressados das senhoras, das senhoras finas de Celas (com as mãos a tilintar do discreto luxo das pulseiras) e das ajudantes de cabeleireira (a pensar já no atraso do almoço e nos muitos contratempos da enfadonha vida doméstica). Horas depois tudo tinha já desaparecido: a ladrona de Lamego, a roupa de contrafacção, os fartos ramos de salsa e as senhoras finas e não finas. Até eu.

Tuesday, October 24, 2006

Chicago sound

Isto não é um clarinete. É um vago instrumento de tortura quando a saudade rói o fundo mais fundo da alma. E mexemos suavemente os dedos ao longo do cilindro tenso do seu corpo e nenhuma nota sai, tal como nos sucede a nós nos sonhos, quando abrimos em desespero a boca para a sabida inutilidade do grito. Isto não é um clarinete, é o princípio da alegria quando dois lábios iniciam, ao poderoso descompasso do jazz, a escalada inevitável do som. Como dizia o outro do seu cachimbo, isto não é um clarinete. É uma pequena história de amor.

Sunday, October 22, 2006

O passeio do poeta

Saídos da adolescência, acreditamos ainda que basta ao poeta olhar ao contrário dos outros homens, para o que guarda dentro de si, lá bem atrás dos olhos com que vê, para que a poesia aconteça, inteira, sublime e intocada quase pela mão humana. Coitados de nós, que ignoramos que o poema representa talvez uma das mais intensas impressões digitais do valor humano e que assim não pode nascer do poeta para o mundo, mas do mundo para o poeta. Se um aluno hoje me pedisse uma breve definição de poeta acho que lhe falaria apenas de um caminhante solitário, com olhos de água e uma cama lisa de palavras no profundo lugar do coração. Nem sei se o poeta passeia, mas sei que o poeta caminha, somando passos, tempos e imagens que são como linhas invisíveis que depois lhe tecem o mar tormentoso da escrita. O mundo avança, o poeta caminha, a obra nasce.

Saturday, October 21, 2006

O rendetemi la speme

Chegada a casa, a mulher ainda hesitou - a Callas ou a Mirella Freni? Talvez a Freni, uma voz mais aberta que a da Callas, mais cheia de esperança, pensou. O rendetemi la speme. Vinha cansada, com o corpo moído do excessivo peso do coração e do fulgor inesperado dos malmequeres. A mulher tinha-os levado há muito tempo para a casa do vale, embrulhados em algodão e água por receio da vertical melancolia das folhas, e plantara-os um a um, cientificamente emoldurados por pequenas pedras roubadas ao mar, na borda do muro do alpendre, sob o ninho redondo das ameixas. Amanhã estão mortos, pensou. E a cada rega a esperança do talvez não. La speme, la speme, cantava a Freni. Mas depois, durante todo o verão, a mulher esqueceu-se deles, e quando finalmente se lembrou achou natural eles terem morrido no exacto momento em que ela própria sucumbia à sentença involuntária da ruína. Naquele momento, ouvindo a Freni implorar pela enésima vez uma última dádiva de esperança, a mulher pensou sobretudo na sua matinal afronta de oiro e pétalas. Como conseguiram eles, se eu não?, pensava a mulher. Ela chegara cedo à casa do vale e sentiu logo a voz das oliveiras soletrando em silêncio o seu nome. Elvira, Elvira. Não respondeu logo, mas deu devagar uma volta pelo lado de fora da casa, confirmando com um sorriso a teimosia invernal das buganvílias e a verde suculência dos abetos. Qui la voce sua soave mi chiamava e poi sparí, disse ela de repente, primeiro só para si e depois também para a breve memória do homem em fuga. Ah, mai più assorti insieme nella gioia dei sospir. L'ingrato obllia, sussurrou surdamente a terra. Mas a mulher não ouviu, perdida mais uma vez na vertigem do mai più. Nunca mais o cheiro nocturno da relva entrando a galope pelas janelas, nunca mais os alegres jantares no terraço, longos como estradas na penumbra ociosa do poente, nunca mais o restaurante de Roma e a alegria do sino no caracol da escada, nunca mais nada, nada nunca mais, nunca nada mais. Un cor fido nell'amor sempre vive nel dolor, lembraram, ingratos, os malmequeres, de cínica crista erguida a prumo no denso cacimbo da manhã. E então a mulher compreendeu. Não me chamo Elvira, disse, e não quero dádiva nenhuma de esperança, quero apenas o dom de a não deixar fugir de mim. Os malmequeres, agastados com a repentina descoberta da mulher, viraram o seu corpo cheio de dedos de costas silenciosas para ela. Com o comando da música na mão, a mulher mexeu-se ao de leve na preguiça mole do sofá e ficou a olhar, por instantes, para o balanço das árvores lá fora, ao vento forte do fim da tarde, até que finalmente adormeceu, assim que a Freni se calou.

Wednesday, October 18, 2006

Paisagem com mulher e mar ao fundo

Quando entrou no comboio, a mulher pensou como era feliz. Tinha vivido duarante horas um pouco da vida verdadeira e isso não era pouco, era muito, se calhar era mesmo tudo. Olhou para trás e viu os carris ainda paralelos, mas logo a seguir olhou para mais longe e viu o ponto negro em que eles depois se confundiam. O coração apertou-se-lhe e encostou suavemente a cabeça ao vidro. O mar parecia calmo, apesar da cinza que caía do céu - cortinas e cortinas de água ligando o mar às nuvens. Um homem caminhava na praia como se o sol caísse a pique e mais adiante, num campo deserto de golfe, dois jogadores arrastavam os seus sacos debaixo de um imenso guarda-chuva. Entretanto começou a chover a sério e a mulher não viu mais nada. Reparou, no entanto, que do outro lado do vidro corriam rios como lágrimas aflitas - breves atalhos de água que o vento aos poucos convertia em pequenos lagos verticais. Quando chegou meteu-se no carro e foi para casa, com os olhos secos do futuro.

Monday, October 16, 2006

Sonata de Outono

Talvez estejam ainda verdes, concedo, mas em breve estarão assim, em fogo cor de beijo, como redondos sóis procurando a direcção da terra. Os olhos da mulher nada poderão ver e ela terá que pedir ao homem para usar os olhos dele. Conta-me a laranjeira, dirá, empresta-me os teus olhos nas palavras com que dirás do lume intenso das folhas e do peso incandescente dos frutos. O homem dirá está bem e uma pequena lágrima doce cairá devagar pela sua face. E a mulher dirá simplesmente sim, estou a ver agora, conta tudo, e depois voltar-se-á para dentro, para o denso caule de si própria, para ver melhor.

Saturday, October 14, 2006

A janela

Estou dentro de paredes brancas.
Quatro paredes: a minha cela,
O frio, a solidão e o meu catre.
A luz entra sempre de noite.
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Não tinha nada donde vim. Aqui não encontrei
O que tive e a cadeira não serve o meu repouso.
Ainda não há lugar no mundo onde possa sossegar de tu não seres
O vazio que persiste à minha beira.
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Tenho um pequeno sonho de uma janela para abrir:
E que paisagem não seria estar feliz!
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Daniel Faria, Poesia, 2ªed., V.N. Famalicão, Quasi, 2006, p. 57.

Friday, October 13, 2006

Uma esplanada sobre o mar

Entre uma reunião e uma conferência fui hoje ver o mar. Depois da ponte sobre a ria de Aveiro, surgem logo ao nível dos olhos as altas dunas da praia, hoje branquíssimas sob o sol enfermiço de outono. No ainda longe da ponte, pequenas manchas verdes começam a querer pousar na areia, ondulando ao vento como aranhas na busca vagarosa da presa; um pouco mais para lá do verde entristecido dos arbustos estava enfim o verde quase impossível da água. Visto de perto, o mar estava exactamente assim, impossível e absurdamente verde, com a brancura da espuma a lembrar uma fresca dentadura de anúncio. Não havia praticamente ninguém naquela esplanada sobre o mar e a praia estava quase vazia, virgem ainda, na quieta lisura da areia, dos passos descuidados dos homens. Alguns surfistas debatiam-se com a força das ondas e daí a pouco eram apenas uma série de pontos negros no verde imenso do mar. Por momentos o vento susteve o rodopio do ar e tudo parou, ao passo silencioso de uma avioneta na exacta linha da beira-mar. Às vezes há momentos perfeitos. Que bom seria se ali tivéssemos estado os dois.