os-tres-caminhos
Temos diante de nós três caminhos. Um é, sem dúvida, o mais longo de todos, embora aquele que o percorra verifique ao fim de algum tempo ter acabado por descrever um círculo regressando ao mesmo sítio. O outro é menos comprido. Contudo, não tem saída. Há, felizmente, um terceiro que é o mais curto de todos. Ele conduz-nos aos outros dois caminhos. Fernando Guimarães
Wednesday, December 13, 2006
Sunday, December 10, 2006
O veado

Tuesday, December 05, 2006
05.12.2006 (Balanço)
BALANÇO
Que fica de quem passa? Um eco de mágoa
ao ouvido da tarde? Uma pausa de palavras
na frase do instante? Uma interrupção de passos
a caminho da porta? Um sal de sentimento
no coração da amada? A vida esfarelada
numa dissipação de rumos? Ou um peso
de esquecimento na sombra da memória?
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Mas quem passa não pensa no que fica,
se os passos o levam para onde espera
ficar; e se o seu destino é a passagem,
onde ficar é sair de onde não chegou a
habitar, é o tempo que o obriga a não olhar
para onde não há-de voltar, mesmo que aí
tenha deixado o que pensou consigo levar.
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Náufrago sem ilha nem barco, ou
marinheiro preso ao porto, é ele o seu próprio
fim, como se a cada momento não soubesse
que não é dele o que leva, e só é dele o
que perde, como se o não quisesse guardar,
para que chegue mais depressa, ao cair da noite,
a esse cais onde ninguém o irá esperar.
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E repete, então, o que não devia fazer, para tudo
fazer de novo, como se tivesse de o fazer.
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Nuno Júdice, As coisas mais simples, Lisboa, Dom Quixote, 2006, p.52.
Sunday, December 03, 2006
Friday, December 01, 2006
Roleta russa
Era uma mulher ainda jovem e esperara pacientemente no passeio que o sinal ficasse verde para os carros. Quando parei à sua frente, ela avançou um passo convicto no largo xadrez da passadeira e fechou os olhos com força, atravessando o mármore preto e branco do asfalto sem sequer soerguer as pestanas. Não sei se fechou os olhos para não ver o carro que cruzou apressado o claro adesivo das riscas ou se, pelo contrário, os fechou na vã esperança de ser apanhada por ele. Foi uma estranha roleta russa, sem balas nem canos de armas, mas com ferros, motores e a pressa redonda dos pneus. Quando a mulher atingiu o passeio oposto, abriu os olhos e continuou calmamente o seu caminho, tão serena como se levasse o destino na concha bordada das mãos.